VIAJANDO EM CADEIRA DE RODAS

Atualizado: 14 de Mai de 2019


De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 bilhão de pessoas vivem com alguma deficiência. Ou seja, aproximadamente 1 em cada 7 é uma pessoa com deficiência. Você já parou para pensar nas dificuldades que as pessoas com deficiência enfrentam no seu cotidiano e em viagens por conta da falta de acessibilidade? Para falar do tema da acessibilidade no turismo, conversamos com Laura Martins, servidora pública e autora do blog Cadeira Voadora, que dá dicas de viagens para pessoas com deficiência.


#Pracegover: Imagem colorida. No centro logo da Cadeira Voadora. uma silhueta de uma pessoa em cadeira de rodase um balão em cima. No fundo um mapa mundi . Escrito em baixo "nossas rodas podem ganhar o mundo"

A HISTÓRIA DA LAURA

Laura teve uma inflamação na sua médula quando ainda era criança. "(Naquela época) Morava no interior, minha mãe veio para a capital comigo, em caráter de urgência. Ficamos seis meses internadas (ela ficou comigo). Quando saí do hospital, eu já conseguia andar com órtese e muletas canadenses, mas quando entrei eu nem ficava sentada sozinha. Minha família tinha poder aquisitivo baixo, então não foi uma vida simples. Sempre estudei com bolsas de estudo, nunca tivemos condições de adquirir uma cadeira de rodas, e eu usava órtese (aparelho ortopédico e muletas canadenses) fornecidos pelo governo", contou.

A blogger destaca que teve de enfrentar muitos desafios durante sua formação e início da carreira profissional. "Formei como técnica em contabilidade. À época as pessoas com deficiência não eram aceitas no mercado de trabalho. A maioria ficava restrita ao lar, porque não havia nenhuma acessibilidade para ir a lugar algum; algumas trabalhavam como autônomas ou com a família. Desde criança, tive vontade de trabalhar para ganhar algum dinheiro, já que nossas condições de vida só nos permitiam o básico. Então, trabalhei com artesanato desde os 12 anos, mais ou menos; dei aulas particulares em minha casa durante alguns anos (eu era excelente em português e matemática) e trabalhei em casa auxiliando em um jornal impresso, fazendo algumas tarefas básicas. (Quando comecei a trabalhar fora de casa) foi desafiador, uma vez que não havia ônibus adaptados. Então, o primeiro esporte de aventura que pratiquei foi pegar ônibus, porque os degraus eram tão altos que tinham de ser escalados.", lembrou.


#Pracegover: Foto colorida. Mulher em uma cadeira de rodas (Laura). Mulher sorrindo, usando um chapéu, óculos, blusa clara com detalhes em preto, calça jeans e um sapatilha vermelha. Autoria da foto Marta Alencar

"Durante toda a vida, enfrentei imensos desafios por causa da falta de acessibilidade, mas também do desconhecimento da sociedade, que ainda não compreende que uma pessoa com deficiência é como as demais: tem competências e limitações, que devem ser conhecidas e compreendidas. Começar a trabalhar foi desafiador, uma vez que não havia ônibus adaptados. E, como vivemos em uma sociedade democrática, que garante direitos iguais, precisamos ter compensações pelo fato de o Estado não nos oferecer condições de ir e vir, estudar, ter saúde e muito mais. Então, (por exemplo) o primeiro esporte de aventura que pratiquei foi pegar ônibus, porque os degraus eram tão altos que tinham de ser escalados", complementou Laura.

Mesmo assim, a deficiência nunca impediu a autora do Cadeira Voadora de seguir sua vida. Ela passou em alguns concursos públicos, passou no vestibular de Letras da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), fez pós-graduação na PUC - Minas e também realiza trabalho voluntário a muitos anos. "A deficiência nunca me impediu de namorar, mas preferi não me casar. Da mesma forma, embora eu pudesse ter filhos, optei por não ter. Tenho um sobrinho que adoro, e que é como um filho. Tenho amigos maravilhosos, que estão sempre ao meu lado e enriquecem a minha vida", concluiu.

ACESSIBILIDADE NO BRASIL

Antes de saber a opinião da Laura sobre o tema de acessibilidade no país, perguntei a ela como era seu cotidiano em sua cidade (Belo Horizonte - MG). "Fora os problemas que existem na maioria das cidades, BH sofre também com a topografia. As ladeiras de Minas Gerais são famosas, não é mesmo? Morar em BH tem esse desafio a mais (risos). Ainda falta muita coisa para melhorar por aqui, especialmente a mobilidade. Por outro lado, praticamente todos os museus e teatros são acessíveis. O serviço público vai ficando acessível pouco a pouco, temos táxis adaptados, um bom aeroporto, algumas escolas já começaram a sofrer mudanças com vistas à acessibilidade. É um longo caminho, e nós, pessoas com deficiência, não podemos piscar os olhos, sob pena de a acessibilidade parar de avançar", ressaltou.


#Pracegover: Foto colorida. Mulher na cadeira de rodas. Ao fundo alguns pedestres passando. Atrás mural da Igreja de São Francisco de Assis na Pampulha em BH.

Para nossa amiga, as principais dificuldades encontradas pelos cadeirantes no cotidiano são: falta de acessibilidade no transporte público, as calçadas quebradas, a falta de rebaixamento nas calçadas (rampinhas), o desrespeito aos nossos direitos, a desconfiança com relação a nossas capacidades. "De modo geral, a população não respeita nem vagas de estacionamento, nem os locais reservados no transporte público, nem nada. No Brasil – mas não só – as pessoas não foram educadas para conhecer as especificidades das pessoas com deficiência, e também de outros segmentos marginalizados. Muita gente, muita mesmo, ignora a razão de haver vagas reservadas; algumas pessoas chegam a achar que é um privilégio. A vaga reservada existe para que a pessoa com deficiência possa chegar a seu destino da forma mais rápida, segura e confortável possível. Não é um privilégio; é uma forma de reduzir danos. Algumas escolas têm nos convidado para fazer palestras dirigidas a crianças e adolescentes, o que é muito válido, pois pode ajudar a construir uma nova geração com mais empatia. E algumas faculdades também têm feito isso", ressaltou.


#Pracegover: Foto colorida. Estacionamento de carros. Na esquerda carro estacionado em cima de vaga da pessoa com deficiência. No lado direito marcação no chão de outra vaga para pessoas com deficiência.

De acordo com Laura, as leis no Brasil são suficientes para garantir a acessibilidade, porém, falta a fiscalização, bem como a consciência ética para não se burlar a lei. "A acessibilidade começou a chegar ao Brasil após a Constituição de 1988, mas vem em passos lentos. Embora muita coisa tenha melhorado nos últimos anos, permanecemos enfrentando desafios inconcebíveis num país desenvolvido, como calçadas quebradas e ônibus cujos elevadores não funcionam. Ainda temos inúmeros problemas na área da saúde, porque os consultórios e clínicas não são acessíveis. Arquitetos e engenheiros, em sua maioria, continuam ignorando nossos apelos e construindo edificações sem acessibilidade", apontou.

CADEIRA DE RODAS VIAJANTE

Além de servidora pública, voluntária em trabalhos sociais, palestrante e ativista na defesa dos direitos das pessoas com deficiência, Laura tornou-se blogger devido a sua paixão por viajar. Assim nasceu o Cadeira Voadora (link). "(O blog) surgiu com a vontade de compartilhar minhas experiências de viagem. Sempre gostei de viajar, e fiz isso até mesmo quando não havia nenhuma acessibilidade. Criei o blog porque achei que seria um desperdício manter essas experiências somente comigo e mais meia dúzia de pessoas. Afinal, as narrativas poderiam auxiliar muita gente a bater asas por aí, como de fato têm ajudado, conforme indicam as mensagens e relatos que recebo", afirmou.

Laura já viajou para muitos cidades no Brasil e no exterior. Segundo ela poucas cidades brasileiras tem um bom nível de acessibilidade. "No Brasil, ainda temos pouquíssimas cidades mais acessíveis (nenhuma delas garante acessibilidade); podemos citar São Paulo, Rio, Curitiba como algumas que caminharam um pouco mais; e Socorro, no estado de SP, que tem avançado bastante. Conheço vários países. Não sei se podemos falar de um país com melhor infraestrutura; talvez pudéssemos falar em cidades. De qualquer modo, EUA, Canadá, Reino Unido e Espanha são alguns dos que têm investido bastante, mas apenas nas cidades mais turísticas. Tenho notícias de que a Suécia e o Japão são bastante acessíveis, mas não sei dizer muito a respeito"


#Pracegover: Foto colorida. Em Buenos Aires (Argentina). Na frente boneco da personagem Mafalda sentada em um banco. Atrás. Mulher sentada em uma cadeira de rodas, Laura. Ao fundo alguns ambulantes e pedestres caminhando pela rua.

Antes de suas viagens, Laura procura informações com relação a acessibilidade, faz pesquisas em sites de outros cadeirantes, pergunta nos grupos do Facebook, faz busca nos sites das prefeituras locais e dos órgãos de turismo. Além de entrar em contato via e-mail ou telefone com os lugares que deseja visitar. De acordo com ela, ela nunca escolheu um destino apenas por ser acessível. Porém, é um fator que contribui para suas escolhas como foi no caso de sua viagem a Londres e Nova York.

Em contrapartida, ela já teve que adiar planos de visita inúmeras vezes por conta de falta de acessibilidade. "Outras vezes, quando estou acompanhada por pessoas que sejam corajosas – ou loucas – o bastante, conseguimos fazer coisas que pareciam impossíveis. Mas, é comum algo bem mais básico: deixar de comprar em uma loja ou comer em um restaurante porque não há nem como entrar", enfatizou.

OS OBSTÁCULOS PARA VIAJAR

"Começa com a mobilidade: como chegar e sair da rodoviária ou do aeroporto? Muitas pessoas precisam de transporte adaptado, e raramente ele existe. Depois, temos problemas com os ônibus rodoviários, que, embora ostentem o adesivo com o Símbolo Internacional de Acesso, ainda não são acessíveis. Isso deveria ser considerado crime, porque é uma mentira. Já há lei que determina a acessibilidade, mas seu cumprimento vem sendo adiado. Estou me referindo ao Brasil, pois em algumas cidades estrangeiras a acessibilidade avançou mais. O transporte aéreo também representa uma grande dificuldade, em todos os lugares, que eu saiba. Você já parou para pensar que nós, cadeirantes, não temos direito de usar o banheiro dos aviões? Sim, não há banheiros acessíveis, embora as cabines também ostentem o adesivo. Temos que ser criativos, viajar com acompanhantes e fazer loucuras para conseguir entrar no banheiro", frisou.

MENSAGEM:

Para finalizar pedi a Laura para deixar uma mensagem para outras pessoas com deficiência que tem a vontade de viajar mais. "Se inspire nas experiências de outros cadeirantes e que tenha a certeza de que cada pessoa com deficiência que se aventura colabora para que o mundo seja mais acessível. Não podemos ficar na invisibilidade nem esperar a acessibilidade acontecer para sairmos de casa. Precisamos sair, conhecer as leis que nos garantem direitos, educar o público, protestar quando somos desrespeitados e até judicializar se for preciso"

Gostou da entrevista com a Laura? Conheça o blog dela o Cadeira Voadora (link)

Facebook /cadeiravoadoraoficial

Instagram: @cadeiravoadora

#acessibilidade #inclusãosocial

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